No coração da mata antiga,
onde o vento assobia modinhas
entre cipós, sabiás e lembranças,
vive a Dríade do Jatobá,
morena baiana de olhos de chuva.
Dizem que nasceu
num encontro impossível
entre uma estrela desgarrada,
uma folha de pau-brasil
e o primeiro raio de sol
que Cabral viu beijar a costa.
Seu vestido é tecido
com retalhos de alvoradas,
sementes de jatobá,
penas perdidas de araras
e risos roubados do Curupira.
Quando ela passa,
o mato inteiro se apruma:
o rio espelha seu rosto,
as bromélias se enfeitam,
e até o velho tronco
parece endireitar as costas.
Tupã lhe deu a voz dos ventos,
Jaci lhe deu o brilho da noite,
e Oxum, vaidosa e generosa,
emprestou um pouco da doçura
das águas douradas.
Seu perfume não mora
em frasco algum da cidade.
Vem da casca da árvore,
do barro depois da chuva,
do mel silvestre,
das flores escondidas da mata.
Talvez seja isso
que os sábios chamariam feromônio;
eu, poeta desajeitado,
chamo apenas de encanto.
Nunca lhe falei de amor.
Sou daqueles apaixonados
que conversam mais com a lua
do que com a própria musa.
Quando a vejo,
finjo estudar as nuvens,
examinar as folhas,
contar passarinhos.
Mas o coração,
esse caboclo fofoqueiro,
entrega tudo.
Ela sorri.
E o sorriso dela
faz o bosque inteiro parecer
uma festa junina encantada.
Às vezes imagino
que as dríades da Grécia
vieram visitá-la.
As ninfas dos carvalhos,
das oliveiras e dos loureiros
sentaram-se à sua sombra
e confessaram, admiradas:
— Nenhuma de nós conhece
árvore tão brasileira.
Então a Dríade do Jatobá
ofereceu-lhes sombra,
frutos e cantigas,
enquanto o vento contava histórias
de Iaras, Boitatás e Sacias.
E eu?
Eu fiquei ali,
feito um cronista do impossível,
anotando em silêncio
a existência daquela morena.
Porque certos amores
não pedem posse,
não pedem promessa,
não pedem explicação.
Basta saber
que em algum lugar da mata
há uma Dríade do Jatobá,
e que o mundo,
só por causa disso,
continua um pouco mais bonito.
*A Rosana Jatobá
*Com Mestre Gepeto**(DGPT Produções Poéticas)**

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